A construção de identidade no Facebook – Por Marcos Hiller

Vivemos em um mundo de mudanças e transformações drásticas no âmbito sociocultural. Pode-se afirmar que temos hoje mais formas de comunicação do que em qualquer outro momento da história. No entanto, muito mais do que simplesmente classificar os novos ambientes de produção midiática, devemos tomar essa produção como ponto de partida para compreender a sociedade contemporânea.

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Em um mundo norteado pela cibercultura e pela sociedade do consumo, em que os meios de comunicação contribuem para modular e modelar práticas identitárias, evidencia-se uma parcela significativa de estudantes universitários que, por meio da produção de conteúdos em redes sociais digitais, compartilham seus modos de ser e viver.

Nesse texto, descrevo como tenho desenvolvido a investigação sobre a construção de identidades no Facebook por parte de jovens universitários de duas instituições de ensino superior da Grande São Paulo, com níveis sócio-econômicos contrastantes.

O objetivo principal dessa minha pesquisa é examinar a forma como alunos de cursos de Publicidade em dois centros universitários da Grande São Paulo modelam suas identidades e constroem o que estou denominando aqui como “eu midiático”, por meio da produção de conteúdos textuais e imagéticos no site de rede social digital mais popular entre os brasileiros na atualidade, o Facebook.

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Selecionei alunos de uma universidade de São Paulo e outra de Guarulhos. A análise dos dados apresentados nos mostra que, apesar de serem jovens com faixas etárias similares e de cursarem o mesmo período de curso universitário (terceiro e quarto semestre de graduação em Publicidade e Propaganda), há discrepâncias entre os perfis identitários dos grupos de alunos, principalmente no que tange à forma como eles se apresentam em ambientes digitais com o Facebook.

No entanto, tanto para os alunos de São Paulo como para os estudantes de Guarulhos, ocorre a vinculação dos bens culturais e midiáticos às suas identidades. Esse processo corrobora o entendimento das práticas cotidianas de construção de identitária. Esta construção se dá, sobretudo, a partir do caráter simbólico associado a essas marcas e produtos.

No caso dos alunos de Guarulhos, verifica-se a valorização muito evidente do pertencimento de cada um desses jovens a uma coletividade. Entende-se, nesse caso, que duas funções estão claramente entrelaçadas: sociabilização e identificação. A primeira diz respeito ao pertencimento e à interação. Desse modo, fazer parte de performances coletivas é “não ficar de fora”, é interagir com os pares reforçando laços sociais.

Já no caso de alunos de São Paulo, há traços que foram buscados em produtos culturais midiáticos específicos – como um destacado de seriados televisivos norte-americanos -, além de fotos de obras de arte e de retratos fotográficos efetuados no exterior. Curiosamente, o uso do Instagram e de aplicativos de geolocalização como o Foursquare só ocorreu no grupo de São Paulo e não entre os alunos de Guarulhos. Os registros revelam mais fortemente a cuidadosa construção de perfis identitários individuais, talvez como forma de se tornar atraente para os pares. Atrelar-se de modo tão visível a produtos culturais mais elitizados no Facebook é uma clara estratégia de construção identitária comum aos alunos deste grupo.

No sentido de problematizar ainda mais meu objeto de pesquisa, foi efetuada uma nova rodada de observação. No entanto, muito mais do que simplesmente monitorar todo o conteúdo publicado em seus respectivos murais do Facebook, elegi um novo prisma de observação. Em virtude das recentes manifestações sociais que se desencadearam por todo o Brasil, buscou-se analisar de que forma os jovens observados se manifestaram no Facebook para expor opiniões e percepções. Diferentemente de outras grandes mobilizações públicas que já ocorreram no Brasil, os manifestantes de agora não têm apenas uma exigência, como eleições diretas ou o Impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Dessa vez, vemos produtos culturais sendo apropriados pelas pessoas nas ruas, como a música da banda O Rappa (“Vem pra rua”), utilizada em um filme publicitário da marca italiana montadora de automóveis FIAT e com o mote da Copa do Mundo, e que virou uma espécie de hino desses levantes. Ou então a máscara branca do grupo “Anonymous”, sendo utilizada como símbolo central, ocultando rostos de muitas pessoas. Além da utilização de cartazes com frases de protesto e alguns dizeres bem humorados que marcam a pecualiaridade e as multiplicidade dessas manifestações atuais.

Pudemos perceber semelhanças e diferenças quanto à forma como os dois grupos observados se apropriaram da plataforma Facebook para expressar percepções acerca de acontecimentos sócio-políticos, como a mobilização que lotou as ruas em várias cidades do Brasil. Em ambas as comunidades, houve um apoio claro pelas manifestações. No entanto, foram notadas diferenças que descrevo abaixo.

No grupo de alunos de Guarulhos, notou-se um envolvimento mais passional na forma como os estudantes enxergaram as manifestações. Um dos estudantes, que é fotógrafo, foi às ruas para captar imagens da população de Guarulhos e depois compartilhar mais de 60 fotos em seu mural do Facebook. Já no grupo de alunos de São Paulo, pelo fato de citarem nomes de políticos brasileiros, além de outros conteúdos da seção política de websites e alguns deles terem relembrado momentos do regime ditatorial no Brasil, nos leva a crer que há nas entrelinhas dos discursos um olhar mais politizado dos acontecimentos. No entanto, não ficou evidenciado que algum aluno tenha ido pessoalmente às manifestações. Isso nos leva a crer que essa aparente consciência política demonstrada nos conteúdos dos alunos de São Paulo seja uma estratégia em tentar demonstrar uma falsa retórica em seu mural do Facebook. Um dos alunos de Guarulhos não apenas foi às ruas, como também registrou por meio de fotografias.

Partindo desse olhar, podemos explorar os rastros digitais desses jovens estudantes de Publicidade não apenas como evidências atreladas à identificação de indivíduos ou à previsão de padrões comportamentais. As redes onde eles se inscrevem não são entendidas como a teia que os captura, mas a trama que emerge das ações que lhes deram origem e que as modificam em retorno. Observar, compreender e descrever essas tramas é produzir um conhecimento sobre um fenômeno social qualquer e, ao mesmo tempo, reinventar um espaço político. O objetivo desta minha mirada foi entender aspectos da comunicação nos sites de redes digitais e discutir como determinados sujeitos sociais produzem conteúdos em sites como o Facebook.

Meu propósito foi demonstrar como se evidencia um processo auto-reflexivo através do qual os usuários ressaltam e tornam público determinados aspectos de suas identidades. Ficou muito visível para mim que esse processo é necessariamente voltado para o olhar do outro e requer uma negociação com ele de modo a obter uma aprovação daquele conteúdo. Neste sentido, a expressividade do usuário no ciberespaço, combinada com suas características simbólicas, é usada para atingir a coerência almejada pelo ator social.

* Marcos Hiller é coordenador do MBA Marketing, Consumo e Mídia Online da Trevisan Escola de Negócios

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