Se eu sentisse…
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Hoje, especialmente hoje, se eu chorasse eu teria chorado. Hoje, só por hoje, seu eu sentisse cada um de meus sentimentos eu estaria sofrendo.
Mas eu não sou assim, eu sou diferente. Eu não lamento a partida de ninguém, eu não sinto falta de uma conversa, eu não apago um telefone para me certificar de não ligar, eu não mando as favas os medos de arriscar tudo por algo que vale a pena e não olho para trás.
Eu sempre falo o que estou pensando, nunca deixei alguém sair de minha vida sem falar o que eu sentia, nunca desisti de um sentimento por pavor de ser frágil e perder o controle da situação. Essa sou eu.
Um dia você está ali e no outro se não estiver, tudo bem, eu não sinto. Também não choro, não me arranho, não perco nunca o ritmo da dança, não perco a chance de ficar quieta, não perco o ônibus no ponto ou as chaves na bolsa.
Hoje, espero que apenas hoje, eu esteja nesse dia estranho, em que eu senti, uma pontadinha estranha, acho que não sei mais como fazer com essas coisas que nos acontecem sem o menor escrúpulo, sem o menor respeito pela paz interior, pela coragem de ser somente você, na sua infinita estranheza.
Hoje eu não chorei.
Uma pintura de outono
ANA CAROLINA VICTORAZZI

Em um fim de tarde translúcido como a água em sua nascente, na época da colheita, observa-se um límpido céu degradê, partindo de um suave rosa algodão-doce passando por um amarelo pálido atrigueirado e confundindo-se, por sua vez, com uma linda seqüência de tons azuis, lembrando o horizonte de um calmo mar no raiar da primavera. Esculturas da mais delicada união de cristais enfeitam essa sublime abóbada celeste, abrigo do Olimpo.
Por esse grandioso espetáculo da natureza estica-se um caminho como a estrada de Santiago, da cor do grafite do lápis que escreve a poesia, delimitado por duas riscas, semelhantes ao giz rabiscando a lousa. Essas discretas marcas passam despercebidas por alguém de alma velha, mas que atraem a imaginação de um jovem espírito com seus movimentos.
Para completar esse cenário belo e sereno como a canção de ninar de uma mãe embalando seu filho nos braços, estende-se, dos lados dessa prazerosa Via-Láctea a ser seguida, um vasto gramado de um verde muito vivo, um tapete felpudo da cor da relva, formando a moldura de uma pintura única, de causar inveja a Renoir.
Nesse momento, o qual não se repete mais, passa um carro preto tão oblíquo e dissimulado como os olhos de Capitu, refletindo em sua superfície o céu, as nuvens a estrada e a grama como um espelho, sem pedir licença para plagiar essa obra, transformando esse transporte em um tapete mágico capaz de conduzir a qualquer desejo.
Descansa a cabeça em seu vidro, uma linda moça de pele clara e cabelos loiro-mel ondulados, como se uma leve brisa os soprasse permanentemente, tornando, assim, seu semblante angelical e leve como o pouso sutil de uma pena numa poça d’água do orvalho da manhã. Com essa aparência meiga e um sorriso enigmático, ela transmite a paz e a felicidade de quem nada teme, pois o crepúsculo de um dia é o anúncio de outro que começará, mais perfeito, como esse fim de tarde que a faz sonhar.
Dia dos Namorados
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Mais um dia dos namorados e… não, eu não tenho um namorado. Nem dois. Enfim…
Por mais que não se queira pensar nisso é como meu colega disse hoje ao MSN, “love is in the air”, não que seja ruim, mas é.
Para mim têm dois motivos pelo qual o dia 12 de Junho não passa despercebido pelos solteiros e chega a ser chato ou irritante dependendo do grau em que se encontram esses motivos na sua vida.
O primeiro é o fato dos comprometidos não entenderem que estar solteiro nessa data não torna nosso dia pior, e sim o deles melhor, o nosso permanece igual, como qualquer outro (teoricamente, claro, afinal, cada caso é um caso). Começam então tratamentos que variam de dó, senso de solidariedade, compaixão com a nossa causa (?????), ironias, sarcasmos entre outros não muito mais agradáveis.
O segundo motivo é o fato de que no mais íntimo dos solteiros nós gostaríamos que tivesse pelo menos uma pessoa pensando em nós hoje. É de noite e ainda estou no estágio, daqui vou para casa e sei que não irei receber uma mensagem ou um telefonema, nem flores ou sequer um convite para passear no parque (até porque hoje em dia seria bem perigoso fazer isso nesse horário, mas vocês entenderam o que eu quis dizer).
Ao mesmo tempo não entendo o porquê estou esperando qualquer demonstração de afeto, afinal é dia dos namorados e eu não o tenho, logo não faz sentido esse tipo de esperança romântica ou platônica, além de não combinar nada comigo.
A única coisa que realmente merece ser registrada hoje é o 2X0 para o Sport ontem. Campeão brasileiro contra o Corinthians, esse é digno de ser registrado.
Crônica de um ponto
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Sair de casa e pegar ônibus é minha rotina diária de trabalho, porém hoje ela foi sutilmente quebrada. Não mudei a rota, nem o horário, mas no ponto, esperando a condução, aproximou-se uma senhora de ar simpático. Sorri e acenei a cabeça murmurando um bom dia, um ato cortês cada vez menos comum, limitado a encontros no elevador. Obtive uma feliz retribuição, ela agradavelmente parou para conversar.
Tinha cabelos curtos castanhos escuros, como seus olhos, os quais, apesar dos contornos já enrugados pelo tempo, eram de uma vivacidade cativante. Vestia uma calça marrom, com uma blusa rosa e um suéter verde escuro. Usava óculos e por trás deles podiam-se notar belos cílios, ainda longos e bem definidos, tinha um batom rosa claro em seus lábios também modificados pelo passar dos anos, entretanto podia-se perceber a beleza irradiada outrora.
Uma conversa de uns 5 minutos, rápida e interessante. Nosso primeiro contato verbal foi uma simples e encantadora pergunta: “Não está com frio com esse cabelo molhado nas costas?”. Nessa hora já fiquei tocada de alguma forma, por ser mais velha me passou a impressão de uma vó cuidando de seu neto. Ela mesma respondeu dizendo como, quando somos jovens, temos mais resistência. Eu contribui com uma semi gargalhada, por ser uma observação que ainda não posso afirmar, nunca fui mais velha para dizer.
Na sequência de nosso diálogo a boa senhora contou ter passado a juventude cuidando de seus pais. Comentou que sua mãe (já martelava em minha cabeça, sim, a bisavó) partiu primeiro e que quando seu pai faleceu pelo menos já estava casada, com um homem que seu pai e sua irmã, uma freira, tinham, por diversas vezes, comentado como era um excelente rapaz.
Ao mesmo tempo em que ela demosntrou gostar de poder relembrar ela ficou emocionada, não chorou, mas pude perceber um leve desafinar em sua voz enquanto interiorizava lágrimas e detalhes dos acontecimentos, aos quais, talvez, nunca saberei.
Meu ônibus começou a virar a esquina e, por último, falou muito segura, como se pudesse ler meus pensamentos: “Nunca é tarde para fazermos coisas por nós”. Senti uma sensação inexplicável de felicidade e de uma reconfortante esperança. Dei-lhe um beijo no rosto e mais uma vez disse em tom sereno “vai com Deus”, olhei para ela, mais uma vez sorrindo, e respondi “amém”.
Enquanto esperava para passar na catraca a menina à frente derrubou uma moeda de 10 centavos no chão, com a mochila na mão percebi o quão difícil seria para ela a simples ação de pegá-la de volta, então me antecipei e fiz esse singelo gesto em favor à moça. Sua retribuição, além do obrigada tradicional, foi um sorriso. O mesmo sorriso grato lançado diversas vezes em direção da vó.
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?


