Vai um incentivo ai?

6 Novembro, 2008 at 7:07 pm (Cinema)

Ana Carolina Victorazzi

Denis Bonelli

(Trabalho apresentado na faculdade – 5º semestre de jornalismo)

De 17 a 30 de Outubro, aconteceu a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, evento que exibiu 456 filmes de 75 países. Tal acontecimento ascende um debate importante, não só para quem produz material cinematográfico, mas também para quem consome esse mercado: as leis de incentivo.

Em 23 de dezembro de 1991, o ex-secretário da cultura e diplomata, Sérgio Paulo Rouanet, promulgava a Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313), também conhecida pelo nome de seu autor.

Segundo o próprio Ministério da Cultura (MinC), a Lei Rouanet foi criada com a idéia de canalizar “recursos para o desenvolvimento do setor cultural, com as finalidades de: estimular a produção, a distribuição e o acesso aos produtos culturais; proteger e conservar o patrimônio histórico e artístico; estimular a difusão da cultura brasileira e a diversidade regional e étnico-cultural”.

O roteirista e professor de cinema, Henry Grazinoli, 30 anos, afirma que “hoje em dia, no Brasil, praticamente não existe cinema sem lei de incentivo. Há algumas tentativas de produções independentes. Em termos de mercado fazer cinema ainda não é um grande negócio, por isso é complicado depender apenas da iniciativa privada para viabilizar nossos filmes. É importante manter o apoio estatal”.

O cineasta e ator José Mojica Marins, o Zé do Caixão, conversou por e-mail, com o Diretriz e contou que seus filmes são subsidiados por “ Recursos Federais, Estaduais e Municipais”. Porém, há um problema na distribuição dos recursos. “O mal é que essa verba normalmente sai para uma mesma panela e realmente quem precisa não consegue receber nada” e salienta “eu não estou”.

A estudante de cinema Luma Reis de 21 anos também mostra outra dificuldade para ser contemplado pelo recurso. “São muitos empecilhos, os editais costumam ser bastante burocráticos, e infelizmente é um processo excludente, em muitos casos é necessário ter contatos”.

Com humor, Zé do Caixão ainda diz a fórmula para participar desse grupo privilegiado. “Juntando grupos de vinte com seis Estados do Brasil e fazer uma excursão a Brasília, falando com a secretaria de cultura e com o nosso Presidente”.

Contudo, por se tratar de uma proposta viabilizada através de meios públicos o beneficiário deve atender a fins públicos, o que acaba por privilegiar o interesse particular de determinas empresas. Foram 8,9 milhões de reais captados em 2008 para a área do audiovisual e 1300 empresas cooperaram em 2007 (MinC, 23/04/2008).

Exemplos disso foram os 900 mil reais liberados para a gravação do DVD da cantora Vanessa da Mata, os 9,4 milhões de reais concedidos para as apresentações do Cirque Du Soleil e os 4,5 milhões de reais destinados a um filme sobre a vida de Bruna Surfistinha. Produções essas consideradas comerciais, suscitando críticas quanto à falta de mecanismos de regulação em relação à aprovação de projetos.

“Para que isso não aconteça deveria ter um júri de pessoas do ramo veterano e a cada verba destinada a um produtor, levantarem a ficha do mesmo, ver se ele tem condição própria e se ele já recebeu verbas para uma produção, saber que produção foi essa e se ela chegou a ser exibida, quanto deu em publico ou dinheiro ou se ela está engavetada e por quê”, propôs Zé do Caixão.

Em enquete promovida pelo jornal Folha de São Paulo, 90% das pessoas que votaram não consideram justo usar os recursos captados por incentivo fiscal em produtos comerciais. “Produções comerciais podem buscar ajuda financeira legalmente e na maioria das vezes os pedidos são aprovados. Embora não seja uma irregularidade, os recursos, muitas vezes, acabam sendo mal aplicados”, divulgou Beatriz Salles, coordenadora do Laboratório de Produção Cultural da Universidade de Brasília, na revista Cidade Biz.

Outro ponto do tema dá-se a partir de alguns estudos acadêmicos no início dos anos 90 vinculando sobre o ciclo da retomada dos filmes nacionais e a busca por sua identidade a mecanismos governamentais de incentivo. A Agência Nacional de Cinema (Ancine) informa que as bilheterias dos filmes brasileiros saltaram de 0,05% em 1992, para 8% em 2002.

Mesmo assim, Zé do Caixão acredita que a grande maioria dos brasileiros ainda tem preconceito contra a produção nacional. “Acho que a Lei Rouanet para projetos do tipo Globo Filmes, acaba se tornando injusto, é só compararmos os tipos de estrutura material”.

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1 Crítica, 8 Filmes

5 Agosto, 2008 at 10:42 pm (Cinema)

ANA CAROLINA VICTORAZZI

Nas últimas semanas de férias universitárias (não fica bem falar escolares!) resolvi ver os filmes perdidos e que, com certeza, me causariam transtornos do tipo, “como assim você não viu esse filme?”.

Pensando nas conversas que perderia fui até a locadora mais próxima de meu doce lar e aluguei 4 filmes: Onde os Fracos Não Tem Vez, Perfume, Quarto 1408 e Mais Estranho que a Ficção. Dois dias depois aluguei mais dois: Desejo e Reparação, Moça do Brinco de Pérola. Então fui ao cinema e vi Batman: O cavaleiro das trevas e Hancock.

O que dizer desse momento cinéfilo de minha jovem vida… tudo visto e nada absorvido. Talvez venha a confundir personagens e histórias, talvez tenha que ver tudo de novo (com certeza Onde os Fracos Não Tem Vez eu terei, afinal, assumo, voltei o final do filme porque tinha certeza que perdi alguma coisa no meio do caminho!).

Desejo e Reparação cativou minha atenção, prendeu minha imensa facilidade em me dispersar por detalhes insignificantes e me fez desejar aquele vestido verde, ficaria muito bem nele modéstia parte. Eu não chorava em um filme desde Era do Gelo, quando o mamute se emociona ao ver os desenhos rupestres. O que mais me agradou foi que eu me senti surpresa no final, quem não gosta de uma surpresa não é mesmo?! Nenhum dos dois finais realmente é feliz, o bem não vence o mau, a paz de espírito não prevalece, nem o ‘happy ending’. Contudo, o diretor mostrou que nada é tão ruim que não possa piorar, ou, para os otimistas de plantão, bom, não há outra alternativa, o fim é do jeito que é e ponto.

Quarto 1408, Mais Estranho que a Ficção e Hancock são apenas filmes. Desprovidos de qualquer pretensão maior, como uma mensagem de vida, uma causa humanitária, um lifestyle, enfim, nada além de filmes.

Já Perfume e Moça do Brinco de Pérola são filmes meio arrastados, alguns momentos eles agitam, você até acha que agora a história vai, porém não passa de uma descida embalando seu 1.0 e que logo chega a uma nova subida e perde a força novamente. Me agradaram muito os atores de ambos os filmes, as trilhas sonoras, a ambientação e o fato deles não serem demasiadamente longos, senão desistiria de assistir como fiz com o novo King Kong e Bravo. Daria três estrelinhas aos filmes e diria para esperar sair na locadora, mas seria redundante, pois disse que os aluguei lá.

Por último Batman que, assim como Desejo e Reparação, merece um parágrafo inteiro. O que falar… quantos longas com cerca de três horas de duração conseguiram prender sua atenção do começo ao fim? Geralmente, quando há uma campanha publicitária ‘ferrada’, o filme não consegue atender as expectativas criadas. Creio que esse também não é o caso de Batman. Aposto que vocês também acharam ótima a primeira mágica do Coringa! O mafioso russo também riu, não se sintam culpados, era só um lápis. Mas vamos combinar, nunca, jamais uma primeira bailarina seria tão privilegiada fisicamente (gostosa) como a loira apresentada no início. Pode pesquisar, procura lá no google, Kirov, Bolshoi, todas tem o famoso biotipo ‘Olivia Palito’.

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Era uma vez…

25 Julho, 2008 at 2:22 pm (Cinema)

Disseram que…

Dé (Thiago Martins), um morador do Morro do Cantagalo (RJ), abandonado pelo pai antes de nascer, cresceu rodeado das dificuldades de se manter honesto em um ambiente hostil. Ainda criança assistiu a um traficante matar seu irmão Beto e em seguida seu irmão mais velho, Carlão (Rocco Pitanga), ter que deixar a favela para salvar sua vida. Porém, mesmo afastado da comunidade, acaba preso por engano durante um arrastão na praia.

Com tantos acontecimentos Dé consegue se manter íntegro vendendo cachorro-quente num quiosque à beira mar, local em que passa a observa Nina (Vitória Frate). Filha única e de família rica, Nina mora em um luxuoso prédio de frente a calçada em que Dé trabalha. Os dois se conhecem em uma festa e acabam se apaixonando.

Juntos, experimentam as alegrias, emoções e dificuldades de viver um amor tão grande quanto improvável. Dé e Nina são o retrato da intolerância e dos abismos sociais que separam brasileiros não apenas no Rio, mas em cidades de todo o país e do mundo”, segundo sinopse oficial do filme.

Eu digo que…

“Era uma vez…” é uma fábula sobre um jovem morador da favela que vivia um romance com uma linda e rica menina. A história só se fez significativa porque, mais uma vez, o diretor mostrou jogo de cintura na hora de abordar um tema tido como desinteressante (“a dama e o vagabundo”) ou, simplesmente, batido.

O diretor Breno Silveira (2 Filhos de Francisco) optou por sensibilizar as pessoas com a provocação “você já olhou para o lado hoje?”. Ele não quer retratar a realidade, não quer dar lição de moral, não quer apresentar uma solução. Ele quer contar uma história que se adeque mais ao nosso cotidiano, acreditando assim nos tocar e nos fazer sentir junto aos personagens cada conflito.

O conjunto da obra é harmônico, cenas bem montadas, boa iluminação, um elenco escolhido a dedo, “todos os atores tinham a alma dos personagens”, disse Breno e uma trilha sonora agradável, não só para quem entende do assunto, mas também para o público em geral. Durante a apresentação, notavam-se sorrisos com cada nova letra apresentada.

O protagonista do filme, Thiago Martins, falou o quanto batalhou pelo papel do vendedor de cachorro-quente Dé. Assim como o personagem, Thiago também é do morro, onde iniciou sua carreira de ator participando do teatro de sua comunidade.

Longe de ser um filme que trata de preconceitos, julgamentos (existem, lógico, mas apenas como pano de fundo), certo ou errado, o emaranhado de situação sempre tem uma justificativa para as sua consequências, aprovemos elas ou não.

Site Oficial: www.eraumavezfilme.com.br

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Adaptação de livro rosiano vira filme

16 Junho, 2008 at 3:18 pm (Cinema)

ANA CAROLINA VICTORAZZI

Com uma área de 1.248 km² e cerca de 26.700 habitantes, Mutum, uma pequena cidade nas chapadas de Minas Gerais, tornou-se cenário e título de uma adaptação da história de Miguelim, personagem do livro “Campo Geral” de Guimarães Rosa (1908-1967).

Além de uma cidade, Mutum, também é o nome de uma ave negra que canta somente durante a noite ou, simplesmente, significa mudo.

Em seu primeiro longa-metragem de ficção, Sandra Kogut mostra os acontecimentos do ponto de vista de uma criança, Thiago, que levou seu verdadeiro nome para dentro do filme.

Cada escolha feita ao longo do projeto era baseada em função das pessoas com a região, para que houvesse uma sensação de conforto, em que atores e não-atores trabalhavam juntos dentro de uma mesma rotina dentro da fazenda, local da filmagem. “Não era uma questão de paisagem. Queria filmar onde tivéssemos estabelecido as relações mais sólidas, onde eu me sentisse em casa e soubesse que poderia contar com as pessoas. A paisagem eram os rostos”, explicou a diretora.

A aproximação entre o filme e o livro dá-se pelas sensações, pois não se aprofunda tanto na sintaxe diferenciada como as criadas pelo escritor. O fato de terem muitos não-atores acabou por render um ar mais humano ao filme. Quando se chorava ou ria, era sempre de verdade, as crianças viviam as emoções, porém a diretora afirma não ser purista, pois tem consciência de que até a “naturalidade” em um filme é construída, “se trata de um filme, não de um retrato da realidade”.

Antes de começar a produzir o filme, Sandra perguntou-se se a história dos anos 50 poderia ocorrer nos dias de hoje, “se ainda seria possível viver de uma forma tão isolada do resto do mundo”. Esse seria o ponto de partida, o fato das pessoas reconhecerem-se na história de Guimarães.

Trabalhou muito com as noções do bem e mal, conceitos confusos para alguém criado na rigidez religiosa pelas mesmas pessoas que agridem (pai de Thiago) e traem (caso subentendido entre a mãe e tio de Thiago).

Sandra comenta também sobre o funcionamento do roteiro, que era repassado aos atores oralmente e que era reescrito diariamente no set de filmagem. “Nada era realmente controlável: imagina um set com crianças, animais, muitas externas, não-atores… A gente trabalhava constantemente no risco e acho que esse risco foi importante para o filme”.

Mutum foi premiado no Festival do Rio 2007 e encerrou a 39ª Quinzena dos Realizadores Cannes 2007.

Nome: Mutum
Diretora: Sandra Kogut
Gênero: Drama
Tempo de duração: 95 minutos
Site oficial:
www.mutumofilme.com.br

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