Uma pintura de outono
ANA CAROLINA VICTORAZZI

Em um fim de tarde translúcido como a água em sua nascente, na época da colheita, observa-se um límpido céu degradê, partindo de um suave rosa algodão-doce passando por um amarelo pálido atrigueirado e confundindo-se, por sua vez, com uma linda seqüência de tons azuis, lembrando o horizonte de um calmo mar no raiar da primavera. Esculturas da mais delicada união de cristais enfeitam essa sublime abóbada celeste, abrigo do Olimpo.
Por esse grandioso espetáculo da natureza estica-se um caminho como a estrada de Santiago, da cor do grafite do lápis que escreve a poesia, delimitado por duas riscas, semelhantes ao giz rabiscando a lousa. Essas discretas marcas passam despercebidas por alguém de alma velha, mas que atraem a imaginação de um jovem espírito com seus movimentos.
Para completar esse cenário belo e sereno como a canção de ninar de uma mãe embalando seu filho nos braços, estende-se, dos lados dessa prazerosa Via-Láctea a ser seguida, um vasto gramado de um verde muito vivo, um tapete felpudo da cor da relva, formando a moldura de uma pintura única, de causar inveja a Renoir.
Nesse momento, o qual não se repete mais, passa um carro preto tão oblíquo e dissimulado como os olhos de Capitu, refletindo em sua superfície o céu, as nuvens a estrada e a grama como um espelho, sem pedir licença para plagiar essa obra, transformando esse transporte em um tapete mágico capaz de conduzir a qualquer desejo.
Descansa a cabeça em seu vidro, uma linda moça de pele clara e cabelos loiro-mel ondulados, como se uma leve brisa os soprasse permanentemente, tornando, assim, seu semblante angelical e leve como o pouso sutil de uma pena numa poça d’água do orvalho da manhã. Com essa aparência meiga e um sorriso enigmático, ela transmite a paz e a felicidade de quem nada teme, pois o crepúsculo de um dia é o anúncio de outro que começará, mais perfeito, como esse fim de tarde que a faz sonhar.