Beba com moderação
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Quem não debateu, escutou ou passou pela Lei Seca brasileira?
Até então, não havia manifestado apoio ou repúdio, porém a verdade é que não seria necessário algo tão radical e drástico se certos episódios não se tornassem corriqueiros e agente passasse a achar tudo normal, que tipo de banalização é essa que torna o ato de entrar na contra mão (em alguns casos até de marcha ré) ou fazer um strike numa calçada cheia de pessoas um fato comum?
Esse fim de semana uma amiga disse que isso tudo não passa de campanha eleitoral, nisso já discordo plenamente, afinal entre meus conhecidos, em sua maioria jovens entre 20 e 25 anos, a lei não é bem vista, pois tornou-se o maior empecilho em prol da “curtição”. Logo, raciocinem comigo, se não recebeu grande aprovação como isso renderia votos? Talvez pela polêmica torne alguém mais conhecido, no máximo!
Ainda na mesma conversa (isso na volta de uma balada, cerca de 4 da manhã) eu disse que, com os acidentes que vem acontecendo, também pudera tomarem uma decisão tão ‘tolerância zero’. Concordo que talvez a imprensa esteja transmitindo mais agora tais acontecimentos e que eles sempre existiram, porém no que isso justifica o fato desses acidentes existirem e acontecerem? Pois foi um dos argumentos contra a lei seca que mais escutei: esse tipo de coisa sempre aconteceu. Minha vontade foi de mandar falar com a minha mão, como podem aceitar dessa forma tais ocorrências, como sendo algo comum ou até mesmo natural.
Outro argumento muito utilizado é o de que é fácil culpar a bebida pelas fatalidades ocorridas. Primeiro, a bebida não tem culpa de nada e sim quem consome ela, principalmente quem consome sem nenhum tipo de bom-senso. Depois, se ninguém parou para prestar atenção, combatem-se as causas de acidentes de trânsito em mais de uma frente, além da bebida, também motoristas que compram cartas, para não prestar pela primeira vez ou novamente o teste, que por sinal é muito fraco/fácil para passar. Logo o número de inexperientes e não-preparados para dirigir em um trânsito caótico aumenta excessivamente.
Caso vocês ainda não tenham notado minha opinião é de que a lei só se faz necessária nesse rigor por culpa nossa e ela só vai deixar de ser necessária pelo mesmo motivo que passou a existir, nossas atitudes.
E não, não sou moralista nem conservadora, apenas me choco ao ler notícias como a de hoje publicada na Folha de S. Paulo: Motorista bebe, entra na contramão e mata 4 pessoas.
Uma pintura de outono
ANA CAROLINA VICTORAZZI

Em um fim de tarde translúcido como a água em sua nascente, na época da colheita, observa-se um límpido céu degradê, partindo de um suave rosa algodão-doce passando por um amarelo pálido atrigueirado e confundindo-se, por sua vez, com uma linda seqüência de tons azuis, lembrando o horizonte de um calmo mar no raiar da primavera. Esculturas da mais delicada união de cristais enfeitam essa sublime abóbada celeste, abrigo do Olimpo.
Por esse grandioso espetáculo da natureza estica-se um caminho como a estrada de Santiago, da cor do grafite do lápis que escreve a poesia, delimitado por duas riscas, semelhantes ao giz rabiscando a lousa. Essas discretas marcas passam despercebidas por alguém de alma velha, mas que atraem a imaginação de um jovem espírito com seus movimentos.
Para completar esse cenário belo e sereno como a canção de ninar de uma mãe embalando seu filho nos braços, estende-se, dos lados dessa prazerosa Via-Láctea a ser seguida, um vasto gramado de um verde muito vivo, um tapete felpudo da cor da relva, formando a moldura de uma pintura única, de causar inveja a Renoir.
Nesse momento, o qual não se repete mais, passa um carro preto tão oblíquo e dissimulado como os olhos de Capitu, refletindo em sua superfície o céu, as nuvens a estrada e a grama como um espelho, sem pedir licença para plagiar essa obra, transformando esse transporte em um tapete mágico capaz de conduzir a qualquer desejo.
Descansa a cabeça em seu vidro, uma linda moça de pele clara e cabelos loiro-mel ondulados, como se uma leve brisa os soprasse permanentemente, tornando, assim, seu semblante angelical e leve como o pouso sutil de uma pena numa poça d’água do orvalho da manhã. Com essa aparência meiga e um sorriso enigmático, ela transmite a paz e a felicidade de quem nada teme, pois o crepúsculo de um dia é o anúncio de outro que começará, mais perfeito, como esse fim de tarde que a faz sonhar.
Iniciativa ecológica brasileira influencia o mundo
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Imagem retirada do Henrique (in)Sana
O aquecimento global, o efeito estufa e suas conseqüências no planeta são temas em evidência, tanto pela importância ambiental quanto pelos questionamentos gerados.
Desse debate surgiu o Protocolo de Quioto, um tratado internacional que propõe compromissos para a redução da emissão dos gases responsáveis pelos danos à Terra. Um dos produtos do encontro criador do protocolo são os mecanismos de flexibilização, entre eles o mecanismo de desenvolvimento limpo (MDL).
Henrique Chaves, consultor do Instituto Brasileiro de Produção Sustentável e Direito Ambiental, disse em entrevista que “o MDL teve como co-autor o Brasil. Sua aplicação em vários países em desenvolvimento mostra que ele foi bem aceito, mas poucos sabem que ele foi iniciativa brasileira, a não ser os representantes que o homologaram em Quioto. Entretanto, como o Brasil é o segundo país em número de projetos de MDL, seguido da Índia, sua visibilidade é boa”.
Esse mecanismo tem o intuito de gerar energia através de meios menos poluentes, ou seja, que não derivem do petróleo ou carvão: os combustíveis fósseis, responsáveis por mais da metade da matriz energética do planeta.
O Brasil tem uma diplomacia competente nessa área de desenvolvimento sustentável, tendo uma série de planos já em andamento e muitos investimentos em pesquisas. Exemplos disso são as plantações de florestas de mamona, girassol, dendê e soja, que, além de captarem o carbono, geram grãos capazes de produzir um óleo vegetal apto a substituir o óleo diesel.
O Japão e a Alemanha são modelos de países que adotaram medidas semelhantes para melhorar o meio-ambiente. Eles estipularam que até 2015 o diesel deve virar uma mistura com cerca de 30% de óleo vegetal. Isso impulsionaria o cultivo de baixo impacto ambiental e haveria uma redução significativa na liberação de poluentes.
Existem também outros tipos de agricultura energética, como a da cana-de-açúcar, que produz álcool e açúcar e da sobra, o bagaço e a palha, pode-se gerar uma grande quantidade de energia. O estudo realizado pelo terminal açucareiro Copersucar aponta que o bagaço de cana produzido hoje no Brasil, queimando adequadamente, equivaleria a 400 milhões de barris de petróleo, metade do consumo anual do país.
“Das 15 modalidades de MDL, as mais usadas até agora são as de substituição de energia fóssil e a de queima de metano. Entretanto, na medida em que as metodologias de projetos de outras modalidades, como a do reflorestamento, sejam aprovadas, elas terão um crescimento semelhante aos das modalidades pioneiras”, declarou Henrique Chaves.
Essa conversão, porém, é demorada e custosa, sendo esse o principal argumento usado, por exemplo, pelo Bush, presidente dos Estados Unidos, o responsável por mais de 50% da emissão de gases de efeito estufa do planeta, para não a fazer. Ele alega que a economia do país seria prejudicada.
Os projetos criados passam por muitas etapas, cerca de nove, antes de sua aprovação e conclusão. Todos eles são extremamente monitorados e, através desse acompanhamento, recebem do Conselho Executivo do MDL o certificado de redução de emissão (CREs), o responsável pelo surgimento do crescente mercado de carbono.
A comercialização dos CREs dá-se por empresas especializadas ou bancos. A companhia que receber o certificado poderá negociar com uma outra que não conseguirá cumprir a meta.
Quarteto de cordas de Varsóvia apresenta-se em São Paulo
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Ontem, dia 17 de Junho tive o prazer de assistir a um incrível quarteto de cordas, o Quarteto Szymanowski no Teatro Alfa em São Paulo.
Grupo nascido em Varsóvia em 1995 e composto por quatro rapazes, cujos nomes são de difícil reprodução, apresentaram distintamente peças de Sergei Rachmaninov, Maurice Ravel e Piotr Ilich Tchaikovsky.
A performance surpreendeu com uma grande expressão corporal e uma feliz escolha de um belo repertório erudito. Além disso, podiam se notar momentos coreografados, uma riqueza de detalhes para oferecer mais dinamismo e paixão ao trabalho-prazer.
Aplaudidos de pé, muito simpáticos nas poucas palavras proferidas ao longo do espetáculo, mostrando um show de talento, aptidão e, também, muitos lugares vazios. Acho que a maioria deve-se ao descaso daqueles que ganharam convites de patrocinadores, um pouco de desinteresse pela procura de eventos como esse junto com uma divulgação discreta (até demais) e ao fato de ainda ser um programa que foge ao conceito de preço popular.
Integrantes:
Andrej Bielow – Violino
Vladimir Mykitka – Viola
Grzegorz Kotow – Violino
Marcin Sieniawski – Violoncelo
Serviço:
Em Cartaz:
Dias 16 e 17 de junho – segunda e terça às 21h
Preços:
Setor A = R$ 130,00 – Setor B = R$ 105,00
Setor C = R$ 70,00 – Setor D = R$ 45,00
Endereço:
R. Bento Branco de Andrade Filho, nº 722, Santo Amaro.
Dia dos Namorados
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Mais um dia dos namorados e… não, eu não tenho um namorado. Nem dois. Enfim…
Por mais que não se queira pensar nisso é como meu colega disse hoje ao MSN, “love is in the air”, não que seja ruim, mas é.
Para mim têm dois motivos pelo qual o dia 12 de Junho não passa despercebido pelos solteiros e chega a ser chato ou irritante dependendo do grau em que se encontram esses motivos na sua vida.
O primeiro é o fato dos comprometidos não entenderem que estar solteiro nessa data não torna nosso dia pior, e sim o deles melhor, o nosso permanece igual, como qualquer outro (teoricamente, claro, afinal, cada caso é um caso). Começam então tratamentos que variam de dó, senso de solidariedade, compaixão com a nossa causa (?????), ironias, sarcasmos entre outros não muito mais agradáveis.
O segundo motivo é o fato de que no mais íntimo dos solteiros nós gostaríamos que tivesse pelo menos uma pessoa pensando em nós hoje. É de noite e ainda estou no estágio, daqui vou para casa e sei que não irei receber uma mensagem ou um telefonema, nem flores ou sequer um convite para passear no parque (até porque hoje em dia seria bem perigoso fazer isso nesse horário, mas vocês entenderam o que eu quis dizer).
Ao mesmo tempo não entendo o porquê estou esperando qualquer demonstração de afeto, afinal é dia dos namorados e eu não o tenho, logo não faz sentido esse tipo de esperança romântica ou platônica, além de não combinar nada comigo.
A única coisa que realmente merece ser registrada hoje é o 2X0 para o Sport ontem. Campeão brasileiro contra o Corinthians, esse é digno de ser registrado.
Canção Dilacerada
ANA CAROLINA VICTORAZZI
(Dedico a um amor e a uma amiga – 09-03-2007)
Todo dia quer esquecer dos seus medos e angústias, de suas feridas e do abandono.
A mudança não é temporária e o perdão não é honesto. Sua felicidade está no reflexo do espelho em que aparece a imagem de um vampiro.
É na solidão acompanhada que sinto coragem de ser, mas só sinto, quieta e em vão.
Consigo ver-me, por dentro me corroendo de desespero e, ao invés de um suspiro cansado, uma risada exagerada.
Não durmo, não como, não entendo.
Entendo o quê? A lição, o sumiço, o descaso, a falta de reconhecimento, o gesto impensado, o beijo curto, o abraço leve, o eu te amo não dito.
Fuga de mim, sem mim, ruim, enfim, melhor assim.
Tarde da noite após a tarde que começou dia. Até tu mudaste para não ser mais igual.
O rio te acompanha, as nuvens te acompanham, vens comigo?
Nunca, jamais. Não porque quero ficar, mas porque não quero ir.
Além, mudar, sim mudei e quero voltar, sem você, culpa sua.
Minha vida um drama, mentira, vivo a comédia, negra e pesada, cruel e impiedosa.
Sangue? Não, anseios e receios, isso que corre no meu corpo quente de você e frio de mim.
Peça retrata crise conjugal em uma comédia-dramática
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Imagem retirada do blog do Petrônio Gontijo
Pequenos Crimes Conjugais parece título de um suspense, talvez um terror para os mais sarcásticos, porém trata-se de uma comédia dramática, com a qual nos identificamos de forma irônica.
Escrita por Eric-Emmanuel Schimitt, autor contemporâneo aclamado nos últimos 10 anos por críticos e público, a peça começa e termina em um entrelaçado de revelações e recordações, mentiras e verdades, que são descobertas no discorrer de uma discussão de relacionamento entre marido e mulher após acidente, acendendo a crise conjugal vivida por eles com o desgaste da convivência.
O cenário é único, um escritório, local onde o Gilberto (Petrônio Gontijo), costumava passar a maior parte de seu tempo, lendo e escrevendo, inclusive o nome da peça é o mesmo de um dos seus livros.
Não sabemos ao certo se a verdade reinou no final ou se tudo não passou de manipulação e também não é possível identificar da parte de quem partiria a dissimulação, se de Gilberto ou Lisa (Maria Fernanda Cândido).
Qualquer pessoa que teve um relacionamento mais duradouro ou convive com outras pessoas que o possuam podem perceber a realidade com que o assunto é recriado na peça. Quando menos percebemos estamos rindo de uma situação trágica em que nos vemos na verdade. O autor faz o público rir de suas próprias atitudes e pensamentos. Talvez muitos saiam do teatro sem perceber esse pequeno detalhe.
Concilia-se perfeitamente ternura e conflito, o final é o recomeço. A visão otimista da relação vai ao encontro de uma frase da coluna de José Simão no jornal Folha de São Paulo: “Otimista é um pessimista mal informado”. Eu concordo!
PEQUENOS CRIMES CONJUGAIS
Serviço
Texto: Eric-Emmanuel Schmitt
Tradução: Paulo Autran
Direção: Marcio Aurelio
Elenco: Maria Fernanda Cândido e Petrônio Gontijo
Local: Teatro Maison de France
Endereço: Av. Presidente Antônio Carlos, 58 – Centro – RJ
Tel.: (21) 2544-2533
Dias/ Horários: Sexta e Sábado – 21h Domingo – 19h.
Preços: Sexta – R$ 50, Sábado e Domingo – R$ 60.
Classificação Indicativa: 12 anos
Duração: 75 minutos
Crônica de um ponto
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Sair de casa e pegar ônibus é minha rotina diária de trabalho, porém hoje ela foi sutilmente quebrada. Não mudei a rota, nem o horário, mas no ponto, esperando a condução, aproximou-se uma senhora de ar simpático. Sorri e acenei a cabeça murmurando um bom dia, um ato cortês cada vez menos comum, limitado a encontros no elevador. Obtive uma feliz retribuição, ela agradavelmente parou para conversar.
Tinha cabelos curtos castanhos escuros, como seus olhos, os quais, apesar dos contornos já enrugados pelo tempo, eram de uma vivacidade cativante. Vestia uma calça marrom, com uma blusa rosa e um suéter verde escuro. Usava óculos e por trás deles podiam-se notar belos cílios, ainda longos e bem definidos, tinha um batom rosa claro em seus lábios também modificados pelo passar dos anos, entretanto podia-se perceber a beleza irradiada outrora.
Uma conversa de uns 5 minutos, rápida e interessante. Nosso primeiro contato verbal foi uma simples e encantadora pergunta: “Não está com frio com esse cabelo molhado nas costas?”. Nessa hora já fiquei tocada de alguma forma, por ser mais velha me passou a impressão de uma vó cuidando de seu neto. Ela mesma respondeu dizendo como, quando somos jovens, temos mais resistência. Eu contribui com uma semi gargalhada, por ser uma observação que ainda não posso afirmar, nunca fui mais velha para dizer.
Na sequência de nosso diálogo a boa senhora contou ter passado a juventude cuidando de seus pais. Comentou que sua mãe (já martelava em minha cabeça, sim, a bisavó) partiu primeiro e que quando seu pai faleceu pelo menos já estava casada, com um homem que seu pai e sua irmã, uma freira, tinham, por diversas vezes, comentado como era um excelente rapaz.
Ao mesmo tempo em que ela demosntrou gostar de poder relembrar ela ficou emocionada, não chorou, mas pude perceber um leve desafinar em sua voz enquanto interiorizava lágrimas e detalhes dos acontecimentos, aos quais, talvez, nunca saberei.
Meu ônibus começou a virar a esquina e, por último, falou muito segura, como se pudesse ler meus pensamentos: “Nunca é tarde para fazermos coisas por nós”. Senti uma sensação inexplicável de felicidade e de uma reconfortante esperança. Dei-lhe um beijo no rosto e mais uma vez disse em tom sereno “vai com Deus”, olhei para ela, mais uma vez sorrindo, e respondi “amém”.
Enquanto esperava para passar na catraca a menina à frente derrubou uma moeda de 10 centavos no chão, com a mochila na mão percebi o quão difícil seria para ela a simples ação de pegá-la de volta, então me antecipei e fiz esse singelo gesto em favor à moça. Sua retribuição, além do obrigada tradicional, foi um sorriso. O mesmo sorriso grato lançado diversas vezes em direção da vó.
Retrato
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?
Adaptação de livro rosiano vira filme
ANA CAROLINA VICTORAZZI
Com uma área de 1.248 km² e cerca de 26.700 habitantes, Mutum, uma pequena cidade nas chapadas de Minas Gerais, tornou-se cenário e título de uma adaptação da história de Miguelim, personagem do livro “Campo Geral” de Guimarães Rosa (1908-1967).
Além de uma cidade, Mutum, também é o nome de uma ave negra que canta somente durante a noite ou, simplesmente, significa mudo.
Em seu primeiro longa-metragem de ficção, Sandra Kogut mostra os acontecimentos do ponto de vista de uma criança, Thiago, que levou seu verdadeiro nome para dentro do filme.
Cada escolha feita ao longo do projeto era baseada em função das pessoas com a região, para que houvesse uma sensação de conforto, em que atores e não-atores trabalhavam juntos dentro de uma mesma rotina dentro da fazenda, local da filmagem. “Não era uma questão de paisagem. Queria filmar onde tivéssemos estabelecido as relações mais sólidas, onde eu me sentisse em casa e soubesse que poderia contar com as pessoas. A paisagem eram os rostos”, explicou a diretora.
A aproximação entre o filme e o livro dá-se pelas sensações, pois não se aprofunda tanto na sintaxe diferenciada como as criadas pelo escritor. O fato de terem muitos não-atores acabou por render um ar mais humano ao filme. Quando se chorava ou ria, era sempre de verdade, as crianças viviam as emoções, porém a diretora afirma não ser purista, pois tem consciência de que até a “naturalidade” em um filme é construída, “se trata de um filme, não de um retrato da realidade”.
Antes de começar a produzir o filme, Sandra perguntou-se se a história dos anos 50 poderia ocorrer nos dias de hoje, “se ainda seria possível viver de uma forma tão isolada do resto do mundo”. Esse seria o ponto de partida, o fato das pessoas reconhecerem-se na história de Guimarães.
Trabalhou muito com as noções do bem e mal, conceitos confusos para alguém criado na rigidez religiosa pelas mesmas pessoas que agridem (pai de Thiago) e traem (caso subentendido entre a mãe e tio de Thiago).
Sandra comenta também sobre o funcionamento do roteiro, que era repassado aos atores oralmente e que era reescrito diariamente no set de filmagem. “Nada era realmente controlável: imagina um set com crianças, animais, muitas externas, não-atores… A gente trabalhava constantemente no risco e acho que esse risco foi importante para o filme”.
Mutum foi premiado no Festival do Rio 2007 e encerrou a 39ª Quinzena dos Realizadores Cannes 2007.
Nome: Mutum
Diretora: Sandra Kogut
Gênero: Drama
Tempo de duração: 95 minutos
Site oficial: www.mutumofilme.com.br







